Espiritualidade light: um problema

 

Tem uma expressão criada pelo filósofo Luiz Felipe Pondé que eu gosto muito: Espiritualidade light.

Eu dou a ela um significado um pouco diferente daquele que ele atribui.

O espiritualista light é aquele muito apegado à modinha, ao lado social de uma crença ou à sua forma, não à essência. E ele pode ser aquele seu amigo que adora yoga, usa japamala como colar, posta frase de efeito e uma foto filtrada do altar no Instagram.

Se diz vegetariano e sonha um dia conhecer a Índia em uma viagem daquelas grifadas com gurus milionários.

Mas tem também aquele que se diz seguidor de Jesus porque ama cantor gospel, colocando no mesmo nível de Madonna ou Paula Fernandes. Adora o retetê- sapatinho de fogo- e os entretês dos irmãos nos grupos de whatsapp.

Mas ele também pode ser de religião de matriz africana. Acha chique usar branco e guias, igual faz Bethânia, Ivete e Joyce Pascowitch. Sabe que intelectual ou artista que se preze sabe qual é seu Orixá de cabeça.

Mas na hora de seguir -de verdade- os ensinamentos de Jesus, Buda, Lao Tse a coisa complica.

No momento em que a solidão é necessária, não há likes nem shares, e que é exigido um exame de consciência, a vontade de ser agnóstica toma conta.

A vontade de estudar os livros sagrados, a disciplina ritualística e litúrgica e a mudança no jeito de olhar o semelhante não encontram base.

O espiritualista light não tem nada a ver com o espiritualista independente. Esse último, embora não seja vinculado a uma religião, vive com verdade, intensidade e disciplina os ensinamentos que os mestres ensinaram. Ele busca viver o amor ao próximo que Jesus ensinou como fez São Francisco, se libertou do apego como Dalai Lama, respeita a Natureza como um ambientalista.

Ele é essência, não forma. Dança ao som dos tambores, louvando o amor de Cristo e querendo construir um bom carma.

Ele se apropria do melhor de cada religião e vive a alma dos ensinamentos, ainda que respeite os rituais.

E mais, não precisa postar nada, porque espiritualidade é algo muito íntimo. É uma relação de transcendência com as Forças Divinas. E isso é muito particular e individual.

Quem precisa de palco é artista. E embora a arte seja uma forma de espiritualidade, assim como a ciência e a filosofia, o espiritualista não é um artista. Ele não representa, ele vive.


Ricardo Hida é astrólogo, tarólogo e babalorixá. Autor do livro Guia para quem tem Guias – Desmistificando a Umbanda. Apresentador do programa “Encontro Astral” na rádio Vibe Mundial, 95,7 FM.

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Comments
  • comment avatar Ana Lúcia 28/05/2020

    Perfeito. O importante é como. Ser antes de ter. Entrega do seu melhor. A forma pouco importa.

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