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CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA COM CLASSE

O caminho português de Santiago de Compostela

CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA COM CLASSE

Não é preciso ter motivações unicamente religiosas para encarar a jornada que leva até a cidade espanhola de Santiago de Compostela. Também não é preciso passar perrengue para completar a caminhada. A seguir, você vai descobrir que dá, sim, para combinar a peregrinação com conforto, bons hotéis, comida de qualidade e atrações turísticas, explorando o norte de Portugal e a região da Galícia

 

Por Ricardo Hida

Há tantas razões quanto caminhos para se chegar a Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. As possibilidades riscam o mapa da Europa para muito além da França, que abriga o trajeto mais conhecido (e extenso) com destino à cidade espanhola. Se no passado a única razão para peregrinar até as relíquias do apóstolo Tiago era religiosa, hoje as motivações são as mais diversas. As experiências ultrapassam o catolicismo e podem ganhar outras conotações espirituais ou mesmo turísticas. Para mim, contribuiu o desejo de conhecer o norte de Portugal, região de origem dos meus avós.

Ainda pouco conhecido, o caminho português vem ganhando relevância e notoriedade em todo o mundo e representa um jeito mais fácil, tranquilo e divertido de se peregrinar até Santiago de Compostela. A primeira e mais importante razão é que a rota é bem mais curta, com 240 quilômetros (contra os quase 800 que ligam França e Espanha) permeados por cidades que acolhem bem os peregrinos a cada 20 quilômetros. A segunda razão é que o caminho é mais plano, excelente também para quem percorre a rota de bicicleta. Isso sem esquecer a facilidade do idioma mesmo quando se atravessa a fronteira e se chega à Espanha, já que Compostela fica na região da Galícia, cuja língua galega lembra muito a nossa. De quebra, pode ser combinada a uma porção de destinos turísticos já consagrados independentemente da peregrinação.

Para o roteiro aqui relatado, que foi combinado também com turismo e descanso, foram necessários 10 dias. Obviamente a viagem pode ser feita com orçamento reduzido e hospedagem em albergues próprios para peregrinos, que não necessariamente garantem conforto generoso. Eu, por outro lado, optei por uma versão com mais tranquilidade, combinada a abençoadas doses de vinho e comida em restaurantes bacanas, além de bons quartos de hotéis para recompensar todo meu esforço físico diário.  Mais caro, mas bem mais confortável – nem por isso com menos propósito. Nesse esquema, a ideia é caminhar 20 quilômetros por dia, levando em média, cinco horas. Enquanto isso, uma van transporta as bagagens de um hotel para outro. Confesso que as caminhadas não foram tão pesadas como imaginei, mas é preciso, mais do que preparo físico, pegar dicas com quem pratica trekking.

 

PREPARA!
Para ser reconhecido como peregrino, o viajante precisa percorrer no mínimo, 100 quilômetros a pé ou 200 em bicicleta, carregando consigo a credencial do Caminho de Santiago de Compostela com dois carimbos por dia, recolhidos nas cidades do trajeto. Parece uma longa distância, mas se bem dividida em cinco horas diárias, fica relativamente tranquila, demandando 20 dias para a jornada em si.
A rota é indicada por setas amarelas, na maioria das vezes acompanhadas de uma concha de vieira, símbolo da peregrinação. É preciso levar dinheiro em espécie porque a maior parte dos lugares onde se pode comer durante o trajeto não aceita cartão de crédito. Em vários pontos é possível encontrar fontes de água potável. A seguir, algumas dicas importantes:
– Use botas para trekking ou caminhada, jamais novas (para que já estejam “laceadas” e não machuquem). As melhores meias são sem costura, com acolchoamento em zonas de impacto
– Leve um bastão retrátil, daqueles usados em alpinismo
– Monte uma mochila própria para escaladas com no máximo 10% do seu peso
– Sempre carregue cantil de água, frutas e barra de cereais
– Óculos escuros, boné e capa de chuva são essenciais
– A melhor época para fazer a rota é entre maio e junho e setembro. No verão, o calor é muito forte e, no inverno, as chuvas atrapalham

O início da jornada

Comecei minha viagem em Fátima, um polo religioso por si só, ainda no centro de Portugal. Passei rapidamente pelo santuário para acender velas que me foram encomendadas por dezenas de amigos e também pedir proteção para a caminhada, como fazem muitos peregrinos. Embora a viagem não tenha me parecido, em absoluto, perigosa, é sempre bom contar com alguma fé.

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Leia mais sobre Fátima: bit.ly/fatima-viajar

Depois de pedir as bênçãos a Nossa Senhora, segui ao Porto, já no Norte, onde passei dois dias para descanso, compras e degustações de vinhos – a ideia aqui é combinar a peregrinação com turismo confortável, lembra? Um hotel que vale conhecer é o Yeatman, pertencente ao grupo Taylor’s, um dos grandes fabricantes do vinho do Porto. O hotel tem cada quarto decorado por um rótulo de vinho. O serviço é irrepreensível e o café da manhã, um dos mais elegantes de Portugal, com direito até a caviar.

Outra grande vantagem de se hospedar no Yeatman é sua proximidade do restaurante Barão de Fladgate. Basta atravessar a rua e experimentar a cozinha tradicional do Douro com técnicas contemporâneas. Passei um dia inteiro degustando vinho do Porto em lugares como a Quinta da Aveleda e a Quinta do Bonfim. Ambas fazem parte de grandes e tradicionais produtores portugueses.

Imperdível também almoçar na Quinta Nova, seja pela atmosfera repleta de construções de pedra e uma igrejinha de 1700, seja pelo cardápio assinado pelo chef André Carvalho. A carta de vinhos do restaurante é assinada pelo winemaker Jorge Alves, considerado entre os melhores de Portugal. Foi lá que provei o melhor chá da minha vida, feito com folhas de videiras.

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Leia mais sobre o Porto: bit.ly/porto-vpm

No dia seguinte foi a vez de conhecer os vinhos verdes e a gastronomia da província do Minho. Diferentemente do vinho do Porto, licoroso e potente, o vinho verde é uma bebida nova, menos complexa, mas igualmente tradicional em Portugal. Dizem que é quase um refrigerante, do que discordo. Uma parada em Guimarães é sempre obrigatória, não só para conhecer a Quinta da Lixa, referência de vinhos na região, mas também pelo seu patrimônio gastronômico e histórico. A primeira capital de Portugal, onde nasceu o rei Dom Afonso Henrique, tem hoje um restaurante com uma estrela Michelin, A Cozinha, que vale a visita e o preço que se paga.  Mas há também os restaurantes típicos que oferecem bucho recheado e as tradicionais tortas de Guimarães.

Fiz um bom walking tour com Felipe, professor de História apaixonado pelo Brasil, que apresenta uma Guimarães a que poucos turistas têm acesso. Além do centro histórico de arquitetura manuelina, é possível visitar o Museu de Alberto Sampaio, especializado em ourivesaria e arte sacra. Já a Citânia de Briteiros é um sítio arqueológico que remete à idade do ferro, testemunha da ocupação romana na área.

Em seguida, fui para Ponte de Lima, última parada portuguesa antes de entrar na Espanha. A mais antiga vila do país abriga também uma das mais tradicionais feiras de Portugal. Ela acontece em uma segunda-feira, a cada 15 dias, e vende artigos de couro, azeites, vinhos e artesanato local. No final de setembro, acontecem durante cinco dias as Feiras Novas, com apresentações artísticas e culturais. Ótima oportunidade para degustar o arroz de sarrabulho – feito com sangue e carne de porco – e beber muito vinho.

Adentrando a Espanha
Já no país vizinho, a primeira parada é a cidade de Tuí. Não há nenhuma referência clara que a separe de Portugal, exceto o idioma e as placas de rua. Ali o programa é visitar a Catedral de Santa Maria, do século 12, além do museu que abriga peças arqueológicas e de arte sacra. Para os gourmets, a Tui Té oferece enorme variedade de biscoitos e chás, inclusive um de caipirinha e outro afrodisíaco. No convento das clarissas é possível também encomendar rosários, escapulários e doces da região. Uma vez em Tuí vale dar uma escapada para Baiona e provar paella e frutos do mar nos inúmeros restaurantes de frente para a praia.

Depois de Tuí, a próxima parada é Pontevedra, onde é possível ficar em um parador – tipo de pousada espanhola que ocupa edifícios históricos, como a Casa del Barón. É interessante visitar a Igreja da Virgem Peregrina, cuja arquitetura foi inspirada na concha da vieira, símbolo do Caminho de Santiago de Compostela. A cidade guarda também a Basílica de Santa Maria e as ruínas de Santo Domingo.

Vale passar um dia em Caldas de Reis, hospedando-se na Casa da Pedreira para aproveitar sua gastronomia local, as massagens oferecidas aos peregrinos e as piscinas com águas termais da região. A partir dali, há inúmeras opções de passeios de barcos para conhecer as culturas de vieiras, ostras e mariscos. O espírito festivo reina em todas, assim como a degustação de frutos do mar fresquíssimos e acompanhados com vinhos da região. Outra iguaria muito rara e apreciada por aqui, embora visualmente nada atraente, são as percebes. O preço pago para prová-las vale cada euro. São muito difíceis de capturar – e igualmente deliciosas.

Nessa região da Espanha fica muito evidente a influência da cultura celta e nórdica. Menções aos bruxos e rituais pagãos são comuns. Em Catoira, cidadezinha muito próxima a Caldas de Reis, no primeiro final de semana de agosto há uma famosa festa viking, internacionalmente conhecida e considerada de interesse nacional. Ali há também várias referências à cultura de sereias.

A penúltima parada antes de Santiago de Compostela é Padrón. Diz a história que foi nessa cidade que o corpo do discípulo chegou a bordo de um barco. E depois de inúmeras dificuldades vencidas com apoio sobrenatural, foi enterrado e redescoberto 800 anos depois. Ali fica a Igreja de Santiago, onde está a pedra que serviu de base para a ancoragem do barco.

Enfim, Compostela
A chegada a Santiago é muito emocionante, mesmo para quem se permite parar e turistar durante o percurso, sem estar focado apenas na peregrinação em si. Veem-se religiosos chorando copiosamente junto da catedral e na missa dos peregrinos, sempre ao meio-dia. Uma sensação de superação e dever cumprido. A Catedral de Santiago de Compostela, em reforma até 2020, abriga no altar-mor a imagem barroca de Tiago, que todos abraçam para pedir proteção. No subsolo, encontram-se as relíquias do santo, que podem ser visitadas – é onde os viajantes depositam conchas de vieiras e flores.

O complexo na praça central, além de abrigar a catedral e o Parador de Santiago, ótima opção de hospedagem, também conta com um museu. O acervo expõe grande coleção de tapetes, com peças criadas por Goya e Velásquez, e o mais antigo guia turístico da Europa: são relatos da viagem do Papa Calixto a Santiago de Compostela. Um museu igualmente interessante é o das peregrinações, sobretudo para quem fez a viagem com o propósito de fé.

Mas nem de longe Santiago de Compostela se mostra um destino unicamente beato. A cidade ferve. Muitos restaurantes, muitos jovens e o clima de festa lembram que o turista está na Espanha. As ruas mais famosas para fazer compras são as do Vilar e a Nova, além do bairro das Fontiñas. Se durante a viagem foi possível visitar alguns museus que exibem joias em ouro e prata, em Santiago é possível comprar colares, brincos, pulseiras e abotoaduras artesanais ricamente trabalhadas em metais nobres e pedrarias.

A região é considerada, ainda, um excelente local para observação de estrelas. Contam relatos históricos que muitos peregrinos seguiam a observação da Via Láctea até chegar a Santiago, onde havia uma explosão de estrelas (o termo Compostela, aliás, vem de “campos de estrelas”). Outra razão que explica a importância astronômica de Santiago é sua proximidade a Fisterra, cidade que fica 50 quilômetros ao norte e era, para nossos antepassados terraplanistas, o fim do mundo. Inúmeros registros apontam que muitas embarcações da época que partiam naquela direção jamais regressaram.

Para quem deseja celebrar em alto estilo a conquista do diploma de peregrino, oferecido àqueles que cumpriram o caminho com o passaporte cheio de carimbos, o melhor lugar é o restaurante da Quinta da Auga. Lá provei um menu degustação com cozinha local (o polvo e o bacalhau são as estrelas), acompanhado de vinhos regionais. As sobremesas, com vinhos licorosos, poderiam facilmente estar presentes em restaurantes estrelados em Paris.

Há um ditado, facilmente comprovado pelas estatísticas, que diz que o peregrino de Santiago de Compostela sempre volta. Há quem tenha feito mais de 50 vezes a jornada. Motivos não faltam. E muito menos caminhos novos com outras paisagens, vinhos, comida, amigos e expectativas.

Quem foi Santiago e por que Compostela?
A cidade de Santiago de Compostela, na Galícia, era um dos três mais importantes locais para os cristãos medievais. Naquela época, um católico deveria ir até Roma (romeiro), Jerusalém (palmeiro) e Santiago de Compostela (peregrino) para ter a remissão parcial ou completa de seus pecados. A cidade da Espanha abriga as relíquias de Tiago, um dos discípulos mais próximos de Jesus. Ele veio pregar o evangelho na Península Ibérica, então uma região romana, e foi decapitado em 46 d.C. Conta-se que dois de seus seguidores teriam levado o corpo até o lugar que hoje virou a cidade de Santiago de Compostela.

Texto publicado na Revista Viajar pelo Mundo.

 

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